segunda-feira, 21 de Setembro de 2009

Morvern Callar - Lynne Ramsay - 2002 - 9/10



Muitas vezes somos confrontados com situações ou atitudes que não conseguimos explicar completamente, mas que mexem connosco nalgum nível primitivo de emoção e percebemo-las sem perceber porquê e Morvern Callar pode ser uma experiência desse tipo ou pode ser uma frustrante sucessão de momentos de irracionalidade pura. A primeira cena pode dizer tudo e pode não dizer nada mas dirá demasiado àqueles que imediatamente quiserem julgar a personagem principal. O namorado de Morvern está deitado no chão da casa onde viviam, sem vida, com os pulsos cortados e é impossível dizer se Morvern se sente triste, contente, se sente o que quer que seja perante tal cena. E esse é o cerne da divisão entre espectadores que adoram este filme e espectadores que o odeiam. Porque mesmo que pouco ou nada do que ela faça a partir desse ponto seja razoável, simplesmente será difícil apreciar a forma como, confrontada com a dúvida, com o suicídio inexplicável de alguém que lhe era próximo, ela recusa sentir-se paralisada e deixa o seu instinto tomar todas as decisões e levá-la aonde quer que seja, porque uma coisa é certa, a sua vida nunca mais será a mesma. Se ela sente raiva, se sente dolência, é impossível auferir, e, provavelmente, até sente tudo ao mesmo tempo, sentimentos contraditórios, porque quando há muitas perguntas e nenhumas respostas estamos a tactear no escuro e no escuro tudo é igual, não se consegue distinguir nada.

Samantha Morton é brilhante. Brilhante. Pega na sua personagem, que é uma personagem que até nem tem muitos traços característicos à partida, é uma personagem que prima por passar despercebida em ambientes sociais, é uma personagem introvertida e pouco faladora, e obriga-nos a prestar atenção a tudo o que faz, a cada gesto ou tique, porque nunca sabemos quando vai revelar algo que possa denunciar a razão porque age constantemente de formas tão imprevisíveis e inescrutáveis. Mas, claro, nunca se vai explicar a ninguém. Não haverão grandes confissões nem grandes prantos. O que só nos obriga a prestar ainda mais atenção. Que é que vai na cabeça desta mulher? Porque é que ela vai a uma festa depois de descobrir o namorado morto? Porque é que abandona a sua melhor amiga sem uma palavra por causa de uma disputa ridícula na viagem que fazem a Espanha? Porque é que sorri, só sorri e porque é que um sorriso em tempos de tragédia é centenas de vezes mais desarmante que uma cascata de lágrimas? Este filme é o Existencialismo em imagens e sons, e, tal como o Existencialismo, é imensamente frustrante e é imensamente cativante. Lynne Ramsay começa a recolher atenções, e Morvern Callar, no fundo, não é assim tão diferente de Ratcatcher (1999), outro filme em que seguimos alguém que vê a face da morte e prossegue a sua vida a um passo desajeitado. Ramsay opta agora por um trabalho de câmara um pouco mais fluído, com menos close-ups e mais distante de Robert Bresson, que sempre me pareceu ter sido uma referência na rodagem de Ratcatcher. Com muita música alternativa, sempre adequada. Morvern Callar é um filme belo e profundo, uma experiência sensorial, visual, auditiva, única. Única.

9/10

sexta-feira, 4 de Setembro de 2009

Adventureland - Greg Mottola - 2009 - 7/10



Depois de ter dado vida a um argumento de um dos mais conhecidos actores cómicos emergentes Americanos da actualidade (Seth Rogen) em 2007 com Superbad, uma genial comédia de situação, Greg Mottola volta agora com um filme totalmente da sua autoria, mais indie e nostálgico, passado nos anos 80, sobre os amores e desamores de Verão de adolescentes empregados num parque temático cheio de personagens sui generis. Com laivos de Sofia Coppola, mas sem o sexto sentido estético desta, Adventureland consegue, ainda assim, captar um ambiente muito próprio, num período muito específico, com charme e graça, equilibrando muito bem as gargalhadas e as lágrimas, em parte devido à abordagem relaxada e honesta dos pequenos dilemas e devaneios próprios da adolescência, desde o tabu da virgindade à convivência com as drogas e o álcool, em parte devido também à escolha acertada dos 3 actores principais, Kristen Stewart (Em), Jesse Eisenberg (James) e Martin Starr (Joel), cada qual capaz de construir a sua personagem de forma muito própria. Os momentos mais desvairados são quase exclusivamente assegurados por um conhecido de infância de James, Frigo, e os dois dementes responsáveis pelo parque, mas o maior interesse de Mottola é mesmo a intimidade que se vai criando dentro e fora da Adventureland entre James e Em (ambos a tentar amealhar dinheiro suficiente para poderem financiar os seus primeiros anos em universidades de Nova Iorque, que começarão em breve) e os erros que cometem, na sua imaturidade. O filme chega a atingir um tom dolente quando nos é dado a ver o ambiente familiar de Em, cujo pai viúvo se deixou sacar por uma mulher vil e déspota, razão pela qual Em tenta passar o máximo de tempo possível fora de casa. Apesar dos sentimentos que os unem, Em não se compromete com James, e mantém, às escondidas, uma relação com um homem casado (Ryan Reynolds), mecânico no parque. Em é mais frágil do quer dar a parecer, mas a forma como arrasta este assunto muito depois de beijar James e de perceber que pode ter uma relação estável com este, parece algo exagerada e não convence. Não ajuda que Ryan Reynolds seja um dos mais insípidos actores que andam por ai e em cada cena que aparece o filme parece perder um pouco o rumo. Mas para um filme que navega algures entre American Pie (Paul Weitz, 1999) e Snow Angels (David Gordon Green, 2007), entre o humor, por vezes cáustico, e as extravagâncias do primeiro e a naturalidade e delicadeza do segundo, podia ser bem pior.

7/10

quinta-feira, 3 de Setembro de 2009

Anos 70 - 10 Filmes Esquecidos

Dez filmes pouco falados, algo esquecidos até, dos anos 70 que são absolutamente fabulosos e encorajo todos os cinéfilos a (re-)descobrir:

L'Éden Et Après - Alain Robbe-Grillet - 1970

Um filme hermético, como todos os de Robbe-Grillet, repleto de anacronismos, sangue, nudez e dualidades.

Deep End - Jerzy Skolimowski - 1971

Skolimowski é um génio a criar ambientes únicos habitados por personagens que enveredam por attitudes transgressivas para conseguirem o que não têm mas desejam. Aqui, um jovem adolescente a trabalhar num complexo decadente de piscinas e saunas apaixona-se por uma colega um pouco mais velha e segue-a para onde quer que ela vá, sedento da sua proximidade, tentado transformar a amizade que partilham em sexo e amor.

Cría Cuervos - Carlos Saura - 1976

Este filme é tão triste e tão calmo na sua tristeza que é absolutamente desarmante. Conta com Ana Torrent, que aqui e em The Spirit Of The Beehive dá as duas melhores actuações de uma criança de sempre da história cinema.

Equus - Sidney Lumet - 1977

Sufocante filme baseado numa estranha peça sobre um adolescente perturbado e com um fascinio pouco saudável e inexplicável por cavalos. Um ambiente febril e de muita amargura é transversal a esta obra que é a minha preferida de Sidney Lumet.

The Spirit Of The Beehive - Victor Erice - 1973

O filme mais nostálgico de sempre.

The Third Part Of The Night - Andrzej Zulawski - 1971

Zulawski é conhecido pelo ritmo frenético dos seus filmes, a bizarria das suas histórias e as actuações extremas e dementes que consegue das suas actrizes. Este é dos seus filmes mais conseguidos, muito complexo na forma como explora o dualismo e a história da Polónia.

The Hospital - Arthur Hiller - 1971

Sardónico até mais não. Para quem gosta de Network, o trabalho mais conhecido do argumentista de The Hospital, e de George C. Scott, já que este é o meu preferido de todos os seus papéis.

Milano Calibro 9 - Fernando Di Leo - 1972

O melhor policial Italiano alguma vez feito. Fernando Di Leo era um mestre da narrativa, e o enredo deste filme é brilhante e sem falhas.

Scum - Alan Clarke - 1979

Tipo Gus Van Sant a fazer filmes em Inglaterra nos anos 70. Um filme muito crítico de um sistema de reformatórios que, felizmente, já não existe, mas, acima de tudo, um grande e muito negro filme sobre clausura.

10 - Blake Edwards - 1979

Muita gente se lembra de Bo Derek, das suas cavalgadas em Bolero e corridas na praia... mas em que filme é que ela anda a correr na praia mesmo? Pois, é neste! E até sair Lost In Translation, este era o melhor filme que havia sobre crises de meia idade e ilusões amorosas.



Cumprimentos!

quarta-feira, 26 de Agosto de 2009

Mother And Son - Aleksandr Sokurov - 1997 - 9/10



Mother And Son é um filme que, pela estética naturalista, pelo ritmo moroso, pelas passagens filosóficas sobre a condição humana, pouco oferece que possa rebater as frequentes comparações que se fazem entre Sokurov e Tarkovsky. É verdade que Sokurov já abordou, na sua longa filmografia, vários temas e já alterou a sua execução vezes suficientes para poder ser considerado um autor original e por mérito próprio, mas há a noção de que, espaçadamente, presta vassalagem ao seu mestre de formas mais ou menos óbvias. Bem, quando a qualidade do trabalho acaba por ser tão elevada como é em Russian Ark (em que Sokurov eleva ao paroxismo as ideias de Tarkovsky sobre o controlo da passagem do tempo e da transição entre espaços usando planos-sequência com um filme sem cortes, dentro de um museu em que cada sala nos remete para um período diferente da história da Rússia) ou como é neste Mother And Son, só se pode mesmo louvar as suas tentativas.

Como ponto de partida, temos um filho a cuidar da sua mãe moribunda numa casa de campo perdida algures numa paisagem bucólica e húmida. Vemos que o seu dia-a-dia se resume a passeios longos pela floresta que os rodeia, a sestas constantes, a ver o tempo passar com uma lassidão com o seu quê de nostálgica, a recordar o passado, à espera do fim, da morte da mãe. O filme não pretende propriamente chegar a lado nenhum, apenas transmitir um sentimento do mais profundo e silencioso pesar, dor pela perda que se aproxima, e é difícil não ser contagiado por essa espécie de miasma, pela forma tão etérea com que explora a mortalidade. É na construção dessa atmosfera e de imagens extremamente delicadas que vemos quem é a grande referência de Sokurov.

Talvez se possa dizer que é um filme mais negro que os de Tarkovsky. Sim, aqui não há grandes dúvidas quanto ao destino ou a sanidade das personagens como em Offret (e a dúvida engrandece-nos, porque é diligente), não há o fascínio pelos actos que transcendem a nossa natureza e escapam a qualquer explicação, como aquela espécie de telepatia no fim de Stalker e a que vulgarmente classificamos como milagres, não, aqui há claustrofobia, há remorsos, há morte, mas tudo isso é pura poesia, a morte é assustadora, mas é tão merecedora dos mais belos filtros de câmara (usando vidro, espelhos, tinta, Sokurov comprime as imagens em várias direcções, como se a pressão da situação que a mãe e o filho estão a viver fosse tal, que o próprio mundo que os rodeia é afectado), dos mais belos enquadramentos possíveis e imaginários como um quadro antigo ou duas pessoas a abraçarem-se. Por isso, Mother And Son é uma experiência arrebatadora. Assim, simples, evocativo, sem enredo. Por isso, Mother And Son é Tarkovsky. Mas, não sejamos injustos, é, acima de tudo, Sokurov.

9/10

Grandes Cenas #5

El Sur, uma obra-prima esquecida, qual Almodóvar qual quê, Erice é o verdadeiro mestre do cinema espanhol (pena que só tenha feito 2 filmes até agora...). No contexto, esta cena demonstra bem o amor entre um pai e a sua filha. Gosto muito desta cena porque o ambiente parece muito Português também.

The Terminator - James Cameron - 1984 - 8/10



Hei, até o Tarkovsky dizia que este filme era bom, quem sou eu para o contrariar?

8/10

sábado, 15 de Agosto de 2009

Filmes de Julho 2009



Lamento a falta de notícias, as férias muito grandes (com direito a conhecer a Maya no Algarve e concertos da Mariza de borla :P ), que estou a ter este ano são a causa da minha recente inactividade (e a lista de filmes de Agosto vai ser consideravelmente menor que esta, de certeza!), mas em breve voltarei a escrever umas coisas, espero ainda ter alguns leitores por ai :D Por enquanto, filmes de Julho são uma carrada deles:

All The Real Girls – David Gordon Green - 2003 - 7/10
Samaritan Girl – Ki-Duk Kim - 2004 - 8/10
Y Tu Mamá También – Alfonso Cuarón - 2001 - 9/10
The Bow – Ki-Duk Kim - 2005 - 9/10
The Thin Red Line – Terrence Malick – 1998 - 10/10
The Son – Jean-Pierre Dardenne, Luc Dardenne - 2002 - 8/10
Rosetta - Jean-Pierre Dardenne, Luc Dardenne - 1999 - 6/10
The Hurt Locker – Kathryn Bigelow - 2008 - 4/10
Landscape In The Mist – Theo Angelopoulos - 1988 - 9/10
Eternity And A Day – Theo Angelopoulos - 1998 - 9/10
The Beekeeper – Theo Angelopoulos - 1986 - 8/10
Charade – Stanley Donen - 1963 - 8/10
Midnight Express – Alan Parker – 1978 - 7/10
Twilight – Catherine Hardwicke - 2008 - 2/10
The African Queen – John Huston - 1951 - 6/10
Few Of Us – Sharunas Bartas - 1996 - 6/10
A Little Princess – Alfonso Cuarón - 1995 - 8/10
Watchmen – Zack Snyder - 2009 - 3/10
Le Canard À L’Orange – Patrick Bokanowski – 2002 - 3/10 (curta)
Presto – Doug Sweetland – 2008 - 9/10 (curta)
Oktapodi – (muitos realizadores) – 2007 - 9/10 (curta)
Lavatory-Lovestory – Konstantin Bronzit – 2007 - 9/10 (curta)
I Met The Walrus – Josh Raskin – 2007 - 7/10 (curta)
The Danish Poet – Torill Kove – 2006 - 6/10 (curta)
Lifted – Gary Rydstrom – 2006 - 8/10 (curta)
L’Ange – Patrick Bokanowski – 1982 - 9/10
Ulysses’ Gaze – Theodoros Angelopoulos - 1995 - 8/10
Beau Travail – Claire Denis - 1999 - 5/10
Russian Ark – Aleksandr Sokurov – 2002 - 9/10
Harry Potter And The Half-Blood Prince – David Yates – 2009 - 7/10
El Sur – Victor Erice - 1983 - 9/10
I Fidanzati – Ermanno Olmi - 1963 - 7/10
Star Wars: A New Hope – George Lucas - 1977 - 8/10
Silence And Cry – Miklós Jancsó - 1967 - 7/10
The Suspended Step Of The Stork – Theo Angelopoulos – 1991 - 8/10

sexta-feira, 24 de Julho de 2009

The Beekeeper - Theo Angelopoulos - 1986 - 8/10



Theo Angelopoulos até já ganhou uma Palma de Ouro, mas nem isso lhe conferiu o reconhecimento que merece. Um verdadeiro virtuoso da mise-en-scène, o seu trabalho tem suscitado comparações compreensíveis com Fellini e Tarkovsky pela forma como combina um elevado sentido estético com uma melancolia permanente e propícia à reflexão. The Beekeeper é, provavelmente, o seu filme mais minimalista. Um professor retirado dedica-se ao seu passatempo, a apicultura, e empreende uma viagem pela Grécia, para as suas abelhas sugarem pólen em várias regiões do país, com a chegada da Primavera. Todas as personagens principais dos filmes de Angelopoulos parecem estar a passar por fases de introspecção intensa e o seu comportamento pode parecer instável. Nadam na solidão enquanto salivam por contacto verdadeiro com as pessoas que os rodeiam ou que mais amam. Às vezes encontram mais solitários pelo seu caminho, o que os pode levar a escorregar para a alienação e a sofrer abandonamento ou a sofrer com o confronto com outros, ou então a encontrar alguma paz de espírito através de simples gestos de compaixão ou solidariedade. The Beekeeper envereda pelo lado mais negro.

A família de Spyros está desintegrada. Todos parecem estar distantes ou quererem alguma distância uns dos outros, apesar de não aparentarem haver problemas, presentemente. No início, a sua filha mais nova parte em lua-de-mel. Spyros levanta-a do chão, segura-a como se fosse um bebé e canta-lhe uma canção de embalar. Ela vai embora. O seu filho vai estudar para Atenas, levando a mãe atrás de si, para o ajudar no dia-a-dia na capital, e a sua outra filha saiu de casa há muitos anos, por razões que não chegamos a perceber. Spyros é daquelas pessoas que se calam mesmo quando têm algo para dizer, e, se por um lado parece deprimido com todas estas divergências, por outro também acaba por fazer pouco para as evitar. No seu caminho pelo seu país, conhece e separa-se e reencontra várias vezes uma jovem expansiva e frívola, sem lar nem destino, que vive ao sabor do vento e dos desejos dos namorados, que nunca são os mesmos. Ela, desde cedo, provoca-o e procura a sua protecção. Faz sexo no quarto de hotel que Spyros reserva para eles com um soldado que encontra na rua, e na manhã seguinte faz a barba do velho e trata-o como se fosse o seu guardião. Talvez canalizando a sua adoração pela filha mais nova, talvez canalizando também as suas frustrações sexuais acumuladas com anos de afastamento progressivo da esposa, Spyros dá à jovem tudo o que pode, mas começa a exigir contacto físico. Tudo isto é intuitivo, mostrado sem palavras, cada cena é assombrosa pela tensão emocional que evoca e que Angelopoulos esconde sobre uma calma aparente. A relação está claramente destinada a não durar mais do que a viagem…

Ao contrário do que acontece na maioria dos filmes deste realizador, são raros os planos-sequência longos, os paralelos entre o enredo e a história da região dos Balcãs e mesmo da Europa em geral, e também não se encontram divagações pelo tempo ou por sonhos para revelar mais sobre a personagem principal, como se vê em Ulysses’ Gaze ou Eternity And A Day. Angelopoulos equilibra sempre todos estes elementos com mestria, mas aqui parece querer preocupar-se quase exclusivamente com a componente humanista que também lhe é normalmente associada. The Beekeeper é um filme mais frágil, mas admiravelmente gracioso. E este é, provavelmente, o melhor papel de sempre de Marcello Mastroianni, a sua subtileza vem ao de cima como nunca. The Beekeeper poderá não ser o filme mais acessível de Angelopoulos, nem o mais canónico, mas é cinema paciente e poético, como poucos conseguem fazer.

8/10

domingo, 12 de Julho de 2009

The Hurt Locker - Kathryn Bigelow - 2008 - 4/10



O filme de guerra tem uma grande tradição no cinema Americano. O género já foi adaptado a incontáveis conflitos e apresentado sobre diversas perspectivas. The Hurt Locker, que retrata o dia-a-dia de um esquadrão anti-bombas no Iraque, está perto da estrutura episódica, muito concentrada nas minudências do trabalho dos soldados em destaque, dos filmes de Samuel Fuller, fazendo lembrar The Big Red One (1980) – infelizmente, sem a qualidade do mesmo. The Hurt Locker compila meia dúzia de missões, todas com desfechos diferentes, algumas mais intensas que outras, separadas por apressadas cenas de confraternização entre o trio protagonista. Will (Jeremy Renner) é o mais reactivo do grupo. É casado, tem um filho, mas, por qualquer razão incompreensível, prefere voltar para zonas de guerra quando pode. Uma citação no início do filme informa-nos que a guerra é uma droga. Seria interessante perceber porquê, se é sobre isso que realmente versa o filme. A realização displicente não ajuda à imersão na narrativa, apenas confunde. O melhor momento vem perto do fim (já depois de actores como David Morse ou Ralph Fiennes terem feito aparições curtas e irrelevantes) e envolve um bombista arrependido, homem de família, pedindo auxílio aos soldados Americanos para desarmar a bomba-relógio que lhe foi presa a cadeado à volta do corpo. A expectativa é de roer as unhas das mãos e dos pés, e destrói qualquer ideia maniqueísta que se possa associar a esta guerra. No geral, The Hurt Locker até nem pretende ser muito mais do que um filme competente de acção, mas mesmo isso nem sempre consegue fazer com eficácia, tornando-se assim olvidável.

4/10

Grandes Cenas #4

Excerto de uma obra irreverente e idiossincrática, de elevada densidade filosófica e que se insere nos géneros de “ficção científica”, “comédia” e “Sean Connery com bigodaça e rabo-de-cavalo”. Behold... Zardoz!